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Back to EpisodesArgentina x Inglaterra: mais do que futebol, um confronto de simbologia histórica e geopolítica
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Quando Argentina e Inglaterra se enfrentarem pela segunda partida da semifinal do Mundial de Futebol de 2026, estará em jogo bem mais do que futebol. Para os argentinos, mais do que uma rivalidade, há uma inimizade baseada em questões de geopolítica e de história que transcende o esporte e que remete diretamente à Guerra das Malvinas, de 1982, e ao forte sentimento de nacionalismo. Enquanto as autoridades tentam manter a disputa apenas no campo esportivo, milhões de torcedores veem o orgulho e o legado heróico de Maradona em questão.
Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires
Com o Brasil, os argentinos têm uma rivalidade limitada ao folclore do futebol, mas com os ingleses o sentimento beira o ódio.
A inimizade da Argentina com a Inglaterra remonta às invasões inglesas de 1806 e 1807 que uniram os argentinos contra os invasores, mas também serviram de estopim para a Independência. Porém, o ponto alto dessa relação conflitante foi mesmo a Guerra das Malvinas, de 1982, ainda uma ferida para os argentinos.
Desde 1965, a ONU emite resoluções a favor da Argentina, reconhecendo uma disputa por soberania com o Reino Unido, mas enquadrando essa disputa numa situação colonial, com o objetivo de eliminar toda forma de colonialismo. As ilhas foram invadidas pelos ingleses em 1833, quando a Argentina já tinha 17 anos de Independência.
Por isso, os jogadores argentinos estão obrigados a ganhar não apenas pelo resultado que classifica para a final, mas pelos 649 argentinos mortos em combate, pelas famílias deles e por milhões de argentinos que veem no campo de jogo uma chance de justiça simbólica que não foi possível no campo de batalha.
Na noite de terça-feira (14), os argentinos foram ao Obelisco da Avenida 9 de Julho com bandeiras, faixas e instrumentos para celebrarem, mas também para pressionarem os jogadores. Esse local do Centro de Buenos Aires é o ponto de celebrações depois das vitórias, mas, pela primeira vez, foi também palco da antessala da partida.
“Enfrentar a Inglaterra implica Justiça para este lado. Justiça”, sintetiza à RFI o torcedor Nicolás Adi, de 32 anos.
Argentina paralisada
O país vai parar. As empresas vão interromper a jornada de trabalho duas horas antes da partida. Muitas outras permitiram o trabalho remoto, Home Office. Os transportes públicos terão uma frequência reduzida e, em muitas cidades, interrompida durante o jogo. Nos hospitais, as consultas foram adiadas, a pedido dos pacientes torcedores. Só casos de emergência, como infartos do coração serão atendidos. Aliás, no jogo de sábado (11) contra a Suíça pelas quartas de final, uma pessoa de 51 anos morreu por parada cardíaca. Vários casos similares foram atendidos.
“Jogar contra a Inglaterra, além de ser um jogo de futebol, é sempre algo que nós, argentinos, levamos para fora do campo: está em jogo o orgulho. Trata-se de vencer os ingleses em tudo. Eles não são apenas rivais. É mesmo uma inimizade que vem da Guerra das Malvinas, do que eles fizeram conosco. Então, é sempre uma questão de querer sair por cima e derrotar os ingleses”, desabafa à RFI o torcedor Lucas Bonilla, de 24 anos.
O heroísmo de Maradona
Como a letra da famosa cantiga repete, “Aquele que não pula é um inglês”. Essa canção marcou os argentinos em 1986 quando Diego Maradona eliminou a Inglaterra com a “Mão de Deus” e com o antológico “Gol do Século”.
Os jogadores daquela seleção de 40 anos atrás recebiam cartas e vídeos nos quais os argentinos diziam que podiam até perder na final, mas jamais para a Inglaterra.
A partida de 1986 é a imagem que todos os argentinos têm de heroísmo. Coincidência ou obra do destino, a Argentina vai jogar agora com a mesma camiseta azul da reserva, usada há 40 anos.
E o grande herói daquele confronto foi Maradona. O gol de mão foi ilegal, mas os argentinos