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Sobre os ossos dos mortos

Sobre os ossos dos mortos

Published 6 months ago
Description

Sobre os ossos dos mortos foi publicado originalmente em polonês, no ano de 2009, publicado no Brasil pela Todavia em 2019, traduzido por Olga Baginska-Shinzato. A tradutora Olga, no caso, é professora de literatura brasileira e língua portuguesa brasileira na Universidade de Varsóvia, na Polônia. Eu queria agradecer à ouvinte e amiga Renata pela gentileza de me lembrar de citar o trabalho imprescindível das pessoas tradutoras na literatura. Ela que também é tradutora e é uma pessoa incrível!

A editora Todavia já estava no processo de trazer Tokarczuk para o Brasil quando foi anunciado seu Prêmio Nobel, o que certamente contribuiu para o marketing da publicação. Sobre os ossos... é um livro que fala sobre as pontes entre os mundos humano e não-humano, algo reforçado numa metáfora um pouco cansada duma protagonista engenheira construtora de pontes. Ou pelo menos o era, num passado meio distante. Ah, e tem uma parte da solução de uma série de crimes.

No tempo em que ocorre a história, a sra. Dusheiko é uma mulher idosa, aposentada, moradora de um vilarejo relativamente ermo do lado polonês na fronteira com a República Tcheca. Ela toca a vida cuidando das casas da vizinhança nos tempos de inverno castigante, admirando a natureza, especialmente os animais, dando aulas de inglês para crianças, e refletindo sobre sua própria solidão. Na minha visão, Dusheiko é uma pessoa altamente introspectiva, aparentemente misantropa, mas bastante afetuosa e também instável, tendo problemas com seu próprio envelhecimento. Ela é, também, a narradora em primeira pessoa. O livro abre justamente com a senhora relatando a descoberta da morte de seu vizinho, que ela chama de Pé Grande. Depois desse acontecimento, uma série de assassinatos relacionados é propagada. Esses crimes têm como vítimas os caçadores de um grupo famoso na região por matar corças, animais especialmente queridos pela protagonista.

Quando vi as contribuições de outras pessoas sobre esse livro, percebi que o romance era largamente tido como policial. Só que não enxerguei o romance como policialesco e me surpreende que tenha sido vendido por tal, tamanha a introspecção da narradora. Para mim, o carro-chefe do livro é justamente esse fluxo introspectivo. A autora nos apresenta uma narradora que tem um intenso fluxo de consciência, conectando partes entre si e o mundo que a cerca, de forma ao mesmo tempo deprimida e apaixonada. Em muitos momentos, é como se eu estivesse lendo um dos meus próprios fluxos de consciência cotidianos. Ao contrário de muitos relatos de leitores, eu criei uma grande empatia com a narradora, já que me identifiquei com ela nesse fluxo e com sua troca espiritual por meio dos sonhos com o mundo dos mortos. Já as partes policialescas, relacionadas aos assassinatos, chegam até a ser um pouco chatas. Cheguei a enxergá-las como um anexo ao meu interesse, que era a vida e a história da senhora, quando na verdade deveriam ter sido o carro-chefe! Há certa estranheza, na minha percepção, na articulação dos elementos policialesco/mistério e introspectivo/mágico, não sei se a autora conseguiu transicionar entre os dois elementos bem durante a história.

Frequentemente, o livro é descrito como mistura entre terror, suspense e humor. Eu não achei aterrorizante, eu não achei engraçado tampouco. De fato, há suspense. Li algumas resenhas sobre o ar depressivo, mas ácido e humorado, da sra. Dusheiko, e só pude notar que algumas das ironias podem ter passado direto por mim como respostas óbvias. Talvez porque eu seja essa pessoa, ironizo com algo que realmente me dói, uso do humor para tentar expressar aos "normais" algo dito com honestidade. Mesmo assim, tive certa dificuldade em perceber o humor como proposital.

Apesar de eu entender a escrita em fluxo de consciência, altamente introspectiva, como minha parte preferida do livro, houve alguns desconfortos narrativos que não posso deixar passar. Flagrei mais de um clichê relativamente embaraços

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